sexta-feira, 2 de junho de 2017

A CASTANHOLA E A CONSCIÊNCIA


O que tem a ver uma castanhola com a Consciência ?  À primeira vista, talvez, nada. Mas antes de começar meu relato deixe-me falar aos leitores que talvez não conheçam deste fruto, para situá-los melhor.  Aqui no Ceará tem uma fruta muito comum conhecida pelo nome de castanhola. Ela é frondosa, alta e o fruto de um sabor muito peculiar. O Juazeiro do Norte de antigamente era rico em “pés de castanhola”. Cada rua, cada quarteirão tinha muitos , talvez por causa da sombra convidativa e neutralizadora dos efeitos do Sol escaldante.

As crianças faziam a festa comendo dessas frutas. Quantas vezes não sentávamos no chão, pernas abertas com uma bacia cheia de castanholas entre elas- comendo até se “empanturrar”. Atualmente nem me lembro mais do sabor delas. Mas veio-me à mente um fato crucial na minha infância, relacionado à castanhola, que marcou para sempre a minha vida.

Não lembro qual idade eu tinha. Mas com certeza era menos de nove . Talvez uns sete ou oito. Éramos um grupo de três: eu, minha prima Ivana Lígia e meu primo Júlio, a quem chamávamos de Neto. Estávamos andando os três na rua Padre Cícero quando, de repente cai uma  castanhola próximo a gente. Um de nós correu para pegar. Era só uma castanhola que tinha que ser dividida pra três . Eu sempre fui muito matreiro. Convenci-os a comer a minha parte primeiro. O problema é que comi a castanhola quase toda. Não deixando quase nada pros outros dois. Naquela época meus instintos eram muito apurados, principalmente os da gula. Eu era famoso na família. Comia tanto que até me chamavam de “ Esmeril” ( instrumento de afiar ferramentas).

Minha prima olhou para a castanhola quase toda comida, fitou-me  furiosa e fez uma pergunta num tom de voz que  até hoje ecoa nos meus ouvidos :

- Menino , tu não tem consciência não?????

Eu lá sabia o que era isso. Mas aquela palavra brilhou como um estalo na minha mente. Foi a partir daquele momento que eu aprendi que havia algo chamado Consciência. Obviamente, o sentido que ela usou foi de “ consciência do que é justo”. Ou seja, um sentido interno que nos leva a fazer algo correto, simplesmente por sê-lo. No caso específico o de partilhar com justiça a fruta em disputa. Eu me lembro que na hora fiquei paralisado. Minha mente parou. Fiquei perdido, confuso e me sentindo super mal. Mas aquela palavra nunca mais saiu da minha cabeça. Nunca mais. A palavra “consciência” virou um mote, um mantra  que passou a fazer parte da minha visão de mundo desde então.

Não é que deixei de ser danado , comilão ou passei a ter consciência  moral, ética e de justiça de uma hora pra outra. Mas aquela palavra me deu algo novo que até então eu não conhecia: a de que  você deve fazer o certo independente dos outros estarem olhando ou não.  É exatamente quando ninguém está olhando que você deve fazer o certo, apenas por que intimamente você sabe que é o que deve ser feito. Isso é a tal da consciência.

Daí por diante essa palavra fez morada em mim. E ao longo dos anos foi tomando novas nuances , sentidos e importância. Hoje sei que existe essa consciência ética e moral que vem do íntimo de cada um. Não estou dizendo que tenho esse sentido aperfeiçoado em mim, mas busco aperfeiçoá-la cada vez mais e aplicá-la no meu dia-a-dia. Nem sempre consigo , mas tento. Por exemplo, evito jogar papel ou lixo na rua- mesmo quando ninguém tá vendo- por estar consciente que isso prejudica a todos. Mas sei que nem  sempre consigo, ou obedeço a essa consciência.

O outro sentido da palavra consciência- e que é fundamental pra mim- é o de se estar consciente, alerta, vigilante, totalmente atento ao presente, ao que acontece no aqui agora. É a mesma palavra que ouvi da minha prima na infância, mas com o sentido ampliado. Estar consciente ou ter consciência de si, é o caminho para se alcançar uma Consciência maior, ou Consciência Suprema também chamada de  Deus.

Agradeço à minha família, meu avô, avó , tias e tios e também aos meus primos e primas que tanto contribuíram para que eu tomasse consciência do mundo e de mim mesmo. Eles ajudaram a regar o meu jardim, jogando sementes  que mais tarde brotariam e me fariam ser o homem que sou hoje: crítico, consciente- mas humano e falho como todos os outros. 

Nessa perspectiva da jornada interior, de ampliação e amadurecimento da consciência  , minha prima foi usada por Deus pra me dar meu primeiro "choque de consciência" , sendo assim foi, de uma certa forma, minha primeira Mestra.
Júlio, Lígia , Eu (topete) e nossa amada tia Yesus Barbosa 

Obrigado! Muito Obrigado!

Alsibar
2017






Um comentário:

  1. Querido sobrinho...

    ... Adorei o texto A Castanhola e a Consciência.

    O que tem a ver uma castanhola com a consciência?

    Entendo que Deus, naquele momento, se utilizou de três crianças para semear a sabedoria divina nos corações de vocês. A prova disso é que hoje vocês se tornaram pessoas de bem, pessoas justas que se preocupam com o próximo.
    Imagina como Deus vai além de tudo. Como uma criança de aproximadamente 8 anos poderia falar sobre consciência... Nem ela própria sabia o que essa palavra significava na época... No entanto foi protagonista da história de cada um de nós..... da dela, da tua e da minha história...

    O Texto me reportou, também, as ruas de Juazeiro toda arborizada, as ruas ainda de paralelepípedos e a criançada correndo pelas calçadas, onde os mais velhos, colocavam suas cadeiras de balanço, aquelas de macarrão para pôr seus assuntos em dia.... Que saudades.....

    Esse relato trouxe lembranças viva dos ensinamentos dos meus pais queridos, o senso de repartir.... Todos nós sabíamos que precisávamos dividir o pão, a manga, a galinha, tudo que comíamos era dividido pra todos, até um ovo mamãe dividi para todos nós.... Recordo-me da cana caiana que papai descascava e cortava em gomo para todos nós.....Ali ele estava nos educando na Consciência da Partilha......

    Obrigada pelo “Amada Titia”.....

    YESUS BARBOSA

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