sábado, 16 de janeiro de 2016

JOHN MAIN - O PADRE "ADVAITA" * E O RESGATE DA MEDITAÇÃO CRISTÃ



“Somente na união conhecemos plenamente o que somos. A tarefa central de nossa vida, na visão cristã, consiste em nos inserirmos na união, em entrarmos em comunhão. Colocar isso dentro do ponto de vista do qual nós, na maioria, partimos, significa superar todo dualismo, toda divisão dentro de nós mesmos e superar a alienação que nos separa dos outros. Foi o dualismo que caracterizou as heresias, heresias que ameaçaram destruir a delicada centralidade, o equilíbrio sadio da perspectiva cristã. É o dualismo, igualmente, que cria para cada um de nós, a alternativa impossível e irrealista do “ou isso ou aquilo”, que provoca tanta angústia desnecessária: Deus ou o homem, amor a si próprio ou ao próximo, claustro ou praça pública." John Main OSB


 Confesso que não conhecia nada de John Main nem de Meditação Cristã até meados do ano retrasado: 2014. Mas pelos caminhos aparentemente casuais do destino, começamos um grupo de meditação sem grandes perspectivas ou expectativas. Pouco tempo depois, soubemos da existência de um movimento mundial de meditação cristã e de um padre católico, monge beneditino, que deu início a um movimento mundial que tem como fundamento a prática da verdadeira meditação. Algo realmente perturbador e desconhecido da maioria das  pessoas- incluindo católicos e espiritualistas.

John Main é considerado hoje um grande mestre, não somente pelos seus discípulos e admiradores mais diretos, mas por mestres e líderes de várias religiões. Seu movimento faz ressurgir no seio do catolicismo uma perspectiva nova de tolerância, respeito e interação entre as religiões, enfatizando o que elas têm em comum- mas preservando e respeitando suas diferenças e peculiaridades. A prática da meditação une as pessoas por ser universal, eterna e comum a todos os homens e credos. Talvez você fique surpreso em saber que sempre houve uma tradição de meditação no seio do catolicismo.

Desde suas raízes históricas que remontam ao judaísmo, passando por Jesus e pelos chamados Padres do Deserto ( notadamente João Cassiano e Dionísio - o Areopagita) , sem esquecer grandes místicos defensores da meditação como Santa Tereza D´ávila, São João da Cruz , São Francisco de Assis e mais recentemente, Padre Pio- John Main teve a grata missão de retomar essa tradição , sistematizá-la,  aprofundá-la e popularizá-la através da organização de grupos no mundo todo- hoje sob a coordenação de seu discípulo direto Laurence Freeman.

Laurence Freeman
A meditação cristã é muito simples e tem vários níveis de interiorização e complexidade- assim como  as  práticas  orientais similares. À primeira vista, pode parecer uma abordagem superficial, mas à medida em que nos aprofundamos, percebemos que não é bem assim. John Main foi iniciado em meditação por um discípulo do grande mestre hindu Ramakrishna. Aprendeu técnicas simples e as praticou. Apesar de ter sido repreendido por seu chefe direto de que aquilo não era uma prática cristã – o que lhe fez parar com as práticas- ele as retomou ao reencontrar por acaso as bases cristãs da meditação nas Crônicas de Cassiano e de outros grandes nomes católico-cristãos. Tendo em vista que a meditação é uma prática dominada por termos e expressões orientais- devido as suas origens históricas- um dos maiores desafios de Main foi  estabelecer equivalências entre os elementos  da tradição cristã e das tradições orientais  que pudessem expressar aspectos cruciais da meditação sem fugir muito da ótica cristã, nem dos seus conceitos essenciais.

Assim,  a jaculatória cristã equivale  aos mantras orientais. Conceitos como paz interior, silêncio, quietude e autoconhecimento são abundantes em toda a tradição católico-cristã, desde o  antigo testamento, nos evangelhos e na história dos grandes místicos cristãos. Até mesmo a “pausa” na respiração- um estado raro descrito pelos grandes iogues, mas facilmente perceptível em meditação profunda- também é ensinada como o clímax da meditação. Uma “ amostra grátis da Eternidade” como cita o Padre Domingos Cunha- o maior divulgador da meditação cristã  em Fortaleza e talvez do Brasil. Ou seja, todos os elementos fundamentais das grandes tradições meditativas como a Hindu, Budista e Taoísta estão presentes também na Meditação Cristã- em nada deixando a desejar.

Deixo vocês com a biografia desse grande mestre espiritual para que todos conheçam e, se possível, pratiquem a meditação. Procure um grupo próximo a sua casa ou funde um. No site da comunidade mundial de meditação cristã você encontra endereços e contatos de grupos além de orientações básicas sobre meditação ( adicionei no final as orientações básicas, retiradas do site da comunidade).

Paz e Graça!

Alsibar

Glossário:

* Advaita- vem de a(não) dvaita ( dualismo), ou seja : não-dualista, que prega o caminho da união, comunhão, superação da dualidade.
                                                                JOHN MAIN OSB 

John Main OSB (1926-1982) tem sido reconhecido mundialmente como um dos mestres espirituais mais importantes do nosso tempo, cuja influência continua a se expandir. Ele tem ajudado muitos cristãos de todas as tradições a começar uma exploração 'pela sua própria experiência' da dimensão contemplativa da sua fé. Ele providenciou um ponto de re-entrada para aqueles que tinham deixado a sua tradição, a fim de encontrar esta profundidade fora dela. E ele ajudou a desenvolver pontes fortes entre o cristianismo e outras tradições de fé.

Batizado com o nome de Douglas Main, ele nasceu em Londres a 21 de Janeiro de 1926. Suas raízes estavam em Co Kerry, na Irlanda. Tendo sido educado na Escola de Westminster Choir e pelos jesuítas em Stamford Hill, Londres, ele fez o serviço militar nos Royal Signals no fim da guerra, e depois disso juntou-se ao Cónegos Regulares Lateranenses por um curto período. Saiu, estudou Direito na Universidade de Trinity, em Dublin, e depois juntou-se do serviço diplomático britânico e estudou chinês na SOAS, em Londres.

É colocado no gabinete do Governador Geral da Malásia, durante a Emergência. As suas funções levaram-no um dia a conhecer um monge indiano e Juiz de Paz, o Swami Satyananda. Foi com ele que aprendeu a meditar e assumiu a disciplina do silêncio, quietude e simplicidade como parte de sua fé cristã e da sua oração diária.

Quando voltou para o Ocidente tornou-se professor de Direito Internacional na Universidade de Trinity, continuando a meditar como parte de sua vida espiritual cristã. Em 1958, ele se tornou um monge beneditino na Abadia de Ealing, em Londres. Foi-lhe pedido que desistisse da prática da meditação, uma vez que não foi reconhecida, então, como uma forma cristã de oração.

No entanto, quando era diretor da escola da Abadia de Santo Anselmo, em Washington DC, em 1969, John Main foi levado a fazer um novo estudo sobre as raízes da sua própria tradição monástica cristã. Nas Conferências de João Cassiano e nos ensinamentos dos Padres do Deserto, ele encontrou a expressão cristã da mesma forma de meditação que tinha aprendido no Oriente. Agora reconhecendo o ensinamento e a necessidade urgente da meditação para o mundo moderno, começou a praticar novamente.

Em 1975, ele abriu o primeiro Centro de Meditação Cristã na Abadia de Ealing, em Londres e começou o que viria a ser a missão culminante da sua busca, que o acompanhou toda a vida, por Deus, e serviço aos outros. Percebendo que esta forma de oração do coração poderia orientar a busca de muitas pessoas modernas por uma mais profunda experiência espiritual, ele recomendou dois períodos diários regulares de meditação que deveriam ser integrados nas práticas habituais da vida cristã. No seu ensinamento, ele enfatizou a simplicidade e a universalidade da prática da meditação, assim como, o reconhecimento do fato de esta ser uma disciplina.

Aceitou o convite do Arcebispo de Montreal para estabelecer um Mosteiro Beneditino dedicado especificamente à prática e ao ensino da Meditação Cristã. Esta foi uma nova forma de vida beneditina integrando monásticos e leigos com a prática da meditação em si, integrada com o Ofício Divino e a Missa. A partir daqui, nos últimos cinco anos da sua vida, John Main viu a expansão da sua visão de comunidade, que ocorreu pelo ensino desta tradição. Ele acreditava que "meditação cria comunidade". A Comunidade Mundial para a Meditação Cristã que cresceu a partir do seu trabalho continua a expressar a verdade da sua intuição para o nosso tempo.

Ele morreu com a idade de 56 em Montreal e está enterrado no Mosteiro Monte Salvador, Elmira, NY.

“Não há oração a tempo-parcial ou oração parcial como se o Espírito não estivesse sempre vivo no nosso coração. Mas há momentos, a nossa meditação duas vezes por dia, em que fazemos uma volta completa da consciência para esta realidade sempre-presente. Chegará um nível de vigília em que a nossa consciência desta realidade é constante, ao longo das nossas mais diversas actividades e preocupações.” (John Main)

Torna-se mais evidente a cada ano que a meditação, é um caminho de amizade e compaixão, constrói uma ponte espiritual entre povos de diferentes fés, entre ricos e pobres, e entre aqueles que sofrem conflitos ou divisão. As grandes perturbações sociais e psicológicas da chamada sociedade moderna clamam por uma mudança de mente e coração, por uma resposta contemplativa profunda. John Main acreditava que cada ser humano, qualquer que seja o seu estilo de vida, é chamado a essa profundidade espiritual e que os fundamentos da civilização assentam na consciência contemplativa.

Em 30 de dezembro de 2007, a 21ª. Liturgia memorial, com música de Margaret Rizza, foi celebrada na Catedral de Westminster, onde ele tinha cantado como um menino de coro.

                                               TECNICA DE MEDITAÇÃO CRISTÃ

O que é Meditação Cristã?
A meditação é fruto de uma sabedoria espiritual universal e uma prática que nós encontramos no centro de todas as grandes tradições religiosas, uma peregrinação da mente para o coração. É um caminho de silêncio, simplicidade e quietude. Pode ser praticada por qualquer pessoa onde quer que você esteja na jornada de sua vida. É necessário apenas estar seguro de seu compromisso com a prática e, em seguida, começar - e continuar começando.
No cristianismo, essa tradição tornou-se marginalizada e até mesmo esquecida ou suspeita. Mas nos últimos tempos uma grande recuperação da dimensão contemplativa da fé cristã vem acontecendo. De importância central para isto é a redescoberta de uma prática de meditação na tradição cristã que tem sua origem nos primeiros monges cristãos - os Padres e Madres do Deserto - e permite-nos colocar em prática os ensinamentos de Jesus sobre a oração de maneira radical e simples.
O Padre John Main, OSB tem um papel importante nesta renovação contemporânea da tradição contemplativa. Seus ensinamentos desta antiga tradição de oração está enraizada no Evangelho e da tradição monástica cristã do Deserto.

Como meditar?
Sente-se com a coluna ereta em quietude.
Feche seus olhos levemente.
Fique na posição sentada relaxadamente, mas alerta.
Silenciosa e interiormente, comece a repetir uma oração de uma única palavra.
Recomendamos a palavra oração "Maranatha".
Recite-a como quatro sílabas de igual duração.
Ouça-a enquanto a vai repetindo com suavidade, mas continuamente.
Não pense ou imagine nada - mesmo que seja de ordem espiritual.
Se vierem pensamentos ou imagens, considere-os apenas como distrações no período da meditação, e então volte apenas a repetir a sua palavra.
Medite a cada manhã e a cada fim de tarde por cerca de vinte a trinta minutos.
Oração de John Main para a Abertura do período da Meditação:

Divino Pai, ajudai-me a discernir a
silenciosa presença de Vosso Filho em meu coração
Conduzi-me àquele misterioso silêncio,
onde vosso amor é revelado a todos que O procuram.”
Maranatha. Vinde Senhor Jesus!


Obras de John Main:

A palavra que leva ao silêncio - Paulus Editora
Momento de Cristo -  São Paulo, Paulus Editora
O caminho do Não Conhecimento - Petrópolis Editora Vozes 2009